segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

415 - Da varanda da nossa aula

"Basta uma janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu também quando cheguei à Sala 19. Era o Castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como dizem) a espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria tomar o pulso aos rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele tema.
«Da varanda da nossa aula» podia muito bem ser o título da redacção; mas também podia ser outro, à escolha do freguês. O que eles escrevessem serviria para eu ver como escreviam, como viam e como imaginavam. À maneira de preparação, disse-lhes:
«Suponham que está aqui uma chávena da China. Vocês têm de escrever a partir dela e podem fazê-lo contando que ela tem este ou aquele feitio, esta ou aquela cor, um desenho que representa isto ou aquilo e tem a asa do lado esquerdo. Mas também não dizer nenhuma destas coisas e imaginar, com os olhos nela, uma coisa passada na China: chinesinhos de rabicho, arroz comido com pauzinhos, sei lá o quê. Ou fantasiar um chá das cinco em que serviu aquela chávena: quem estava nesse chá, o que se disse, o que se passou durante essa hora. Posto o que, vão à janela um bocadinho, olhem, voltem, sentem-se e escrevam o que quiserem, com o título ou subtítulo “Da varanda da nossa aula”.»
Os rapazes, feito o honesto barulho de correrem à varanda, atiraram-se à obra. Eu fui pacatamente olhar Lisboa, porque quero começar a fazer-lhes sentir que eles não devem copiar(...)."
 
(...)O que era bom era dar sempre uma aula como a de hoje!” (22 de Outubro de 1949); “E foi o que eu ontem não consegui...” (25 de Março de 1949)(...)

Sebastião da Gama 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Victoria de Knut Hamsun

Confesso que a escrita de Knut Hamsun (prémio nobel da literatura)  me fascina, pelo estilo narrativo e pelo inesperado de cada um dos enredos dos seus livros. Se tivermos em conta que´e um escritor do início do século XX, descobrimos que o seu estilo estava muito à frente à sua época.

Victoria aborda o tema do amor impossível e do desencontro amoroso: Johanes, filho de um modesto moleiro ama Victoria, jovem de família aristocrata...

É um livro de rara beleza na forma como é narrado e na forma como são desenroladas algumas cenas de encontros e desencontros onde são incluídos belos apontamentos poéticos. 

domingo, 28 de junho de 2015

Quando uma música é uma leitura

O meu amor tem lábios de silêncio
E mão de bailarina
E voa como o vento

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela

Jorge Palma

domingo, 17 de maio de 2015

Pan

Pan, de Knut Hamsun (prémio nobel da literatura em 1920) é, na sua essência, a história de um sentimento do Tenente Thomas Glahn (personagem central do romance) que o atrai para Edwarda. Tudo o que vemos acontecer não é senão a forma como tal sentimento ganha consciência de si, se afirma, se frustra, se nega, reinicia, se nega de novo. Não há outro enredo: toda a narração se confunde com toda uma série de metamorfoses desta atracção do Tenente pela Edwarda que ele não consegue compreender nem dominar; que às vezes parece corresponder-lhe e amá-lo também, mas subitamente lhe escapa e o despreza. Que regressa quando a dava por perdida, que o chama de novo, para, uma vez mais, o agredir e rebaixar. Pan é, pois, a história desta indecisão e desta incompreensão, desta contínua tensão que, no limite, funciona como um jogo - entre querer e não querer, como se todo o amor precisasse de ser posto à prova: ou como se desejássemos somente enquanto o objecto do nosso desejo nos é inacessível e, no momento em que sentimos que também ele nos deseja, principiássemos a querê-lo menos, a desinteressar-nos, a afastar-nos...

Mas há um outro aspecto que o romance de Hamsun capta perfeitamente. O objecto do amor é, até certo ponto, transferível. Em face do seu sentimento ingrato e difícil por Edwarda, que o ignora ou repudia, o Tenente pode amar outras mulheres. Até certo ponto. Para provocar ciúmes, ou para preencher o seu mal-estar. Ou enganando-se a si mesmo. Possivelmente, só mesmo para se enganar a si mesmo.
Sinopse a partir daqui:  http://leitordeprofissao.blogspot.pt/2010/11/knut-hamsun-pan.html