terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Memórias de um leitor... (Diário de Anne Frank)














































Desta vez, e na sequência do post Thiago de Mello, venho "falar" do Diário de Anne Frank.

Este livro foi-me apresentado por uma professora de Língua Portuguesa quando eu andava no que agora é o 5ºano de escolaridade.

pausa para referir que, infelizmente, não sou como alguns que guardam gratas memórias dos seus tempos de escola, que tiveram professores espectaculares e ainda hoje se lembram do seu nome.
Eu tive apenas 3 ou 4 professores no 2º 3º Ciclos e secundário que achei fora do usual...)

Esta professora acompanhou-me no 5º e 6º ano na transição do antes para depois do 25 de Abril (73/74 e 74/75)
Não me lembro do seu nome, nem me recordo de grande relação afectiva. No entanto vejo agora que gostava ela de ler e gostava de nos passar esse gosto. Penso que sou hoje leitor o devo a ela...

Ela leu-nos e fez-nos ler muitos livros: Em busca do pólo Sul - Com a história do Capitão Scott e do Norueguês Admusen , As aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira, ... , punha-nos a declamar poesia: com o País de Marinheiros de António Nobre também declamado pelo João Villaret (para tal levava um gira discos para a aula). Organizou uma biblioteca de Turma (lembro-me dos livros da Fruto Real: Tom Sawyer, Marco...) em que, no final, ganhei autografado por ela o livro "O sol e o menino dos pés frios" de Matilde Rosa Araújo...
Também nos quis fazer ler "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma" de Irene Lisboa, ...

E, claro, O Diário de Anne Frank

Durante varias aulas leu-nos excertos do diário que todos ouvíamos com imensa atenção.

"20 de Junho de 1942
Escrever um diário é uma experiência realmente estranha para alguém como eu. Não somente porque nunca escrevi nada antes, mas também porque acho que ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de treze anos. Bom, não importa. Tenho vontade de escrever, e tenho uma necessidade ainda maior de tirar todo tipo de coisa do meu peito.

'O papel tem mais paciência que as pessoas'. Pensei nesse ditado num daqueles dias em que me sentia meio deprimida e estava em casa, sentada com o queixo apoiado nas mãos, chateada e inquieta, pensando se ficaria ou sairia. Finalmente fiquei onde estava matutando. É, o papel tem mais paciência, e como não estou planeando deixar que ninguém mais leia esse caderno de capa dura que geralmente chamamos de diário, a não ser que algum dia encontre um verdadeiro amigo, isso provavelmente não vai fazer a menor diferença."

Logo na altura este livro me marcou e, reflectindo agora, vejo que se tornou um dos livros da minha vida, pois ficou logo na minha memória. Comprei-o não muito tempo depois e foi lido durante a adolescência e na juventude (18/19/20 (?) anos). Descobri sempre novas leituras nessa mesma leitura. A última vez que o li foi após a visita à casa de Anne Frank, em Amesterdão, há três anos atrás (fotos de cima).

Devia ser obrigatório que os professores lessem para os seus alunos livros. Podiam ser de qualquer tipo desde que o fizessem com entusiasmo e amor e explicassem aos alunos os porquês: de gostar dele e de uma ou outra palavra difícil que mesmo em contexto não se consegue perceber o significado.

Ah, nunca mais me esqueci da lição e ganhei o hábito de ler para os meus alunos (apesar de não leccionar Língua Portuguesa).

"Quarta-feira, 15 de Março de 1944

Querida Kitty:
Todo o santo dia ouço : se acontecer isto ou aquilo teremos as maiores dificuldades... e se aquela rapariga ficar doente, já não temos mais ninguém no Mundo... e se...
Já sabes a lenga-lenga. Pelo menos já deves conhecer bastante esta gente do anexo para poderes adivinhar o que andam a dizer.
A causa desses "se, se..." é a seguinte: o sr. Kraler foi convocado para um "campo de trabalho", a Elli está terrivelmente constipada, a Miep ainda se não levantou
da gripe e o sr. Koophuis teve outra vez uma hemorragia e desmaiou! Um chorrilho de desgraças.
O pessoal do armazém tem feriado amanhã. Se a Elli tiver de ficar em casa, a porta ficará fechada e temos de fazer muito pouco ruído para que os vizinhos não desconfiem.
O Henk deve vir à uma hora para olhar pelos "abandonados" e para representar o papel de guarda de jardim zoológico. Hoje, à hora do almoço, contou-nos, pela primeira vez desde há bastante tempo, coisas do grande mundo lá de fora. Devias ter visto como o ouvimos todos com o máximo interesse. Há um quadro que se chama "Avozinha conta histórias". O nosso grupo deve ter tido o mesmo aspecto. Falou, falou, com muitos pormenores e pormenorinhos, e não se esqueceu de contar-nos coisas sobre comidas e do médico da Miep por quem perguntámos.
-Médico? Não me falem desse médico! Hoje de manhã telefonei-lhe, mas só consegui que um assistentezinho viesse ao telefone. Pedi-lhe uma receita contra a gripe. Disse-me
que, entre as oito e as nove, podia ir buscá-la. Quando se trata de uma gripe mais grave, suponho que o médico vem pessoalmente ao telefone para dizer:
"Mostre a língua...
diga aaahhh... sim, senhor, ouço bem, tem a garganta inflamada. Vou transmitir a receita à farmácia. Depois pode ir lá buscar o remédio. Bom dia!" Lindo serviço, não
há dúvida. Consultas exclusivamente pelo telefone!
Mas podemos acusar os médicos? Ao fim e ao cabo cada pessoa só tem duas mãos e, infelizmente, existem agora muitos doentes e muito poucos médicos. Mas não pudemos deixar de nos rir, quando o FIenk representou aquela conversa ao telefone. Imagino como é diferente, agora, a sala de espera de um médico. Decerto já não desprezam só os doentes da "caixa", como era costume. Agora devem desprezar-se as pessoas que não sofrem de nada a sério mas que gostam de se queixar. Provavelmente falam-lhes assim:
-Que é que queres? Vai para o fim da bicha, que temos agora de tratar primeiro os autênticos doentes.
Tua Anne"


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Todos conhecem a historia profundamente dramática da jovem Anne Frank. Publicado pela primeira vez em 1947, pela iniciativa do seu pai, o Diário veio revelar ao mundo o fora, durante dois longos anos, o dia-a-dia de uma adolescente condenada a um voluntária auto-reclusão, para tentar escapar á sorte dos judeus que os alemães haviam começado a deportar para supostos "campos de trabalho".
Tentativa sem final feliz. Em Agosto de 1994, todos aqueles que estavam escondidos no pequeno anexo secreto onde a jovem habitava foram presos. Após uma breve passagem po Westerbork e Auschwitz, Anne Frank acaba então por ir parar a Bergen-Belsen, onde vem a morrer em Março de 1945, a escassos dois meses do final da guerra na Europa.

2 comentários:

  1. Muito bom.
    Adoro a Anne Frank e tenho vários materiais sobre
    a vida dela.

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  2. Viva:

    Bem vindo(a)
    É mesmo um dos livros e pessoas da minha vida

    Quando puder volto lá (aquela casa)

    João

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